Neste café em casa, Mercia conheceu mais de perto minha nova vida sozinha. Surpreendeu-se por me sentir adaptada no apartamento compacto de 69 metros quadrados no primeiro andar. Balançava a cabeça e apontava a mesa posta: “E o que é tudo isto!”. No apartamento anterior, de 300 metros quadrados e bem decorado, o bate-papo era na ampla varanda com bela vista do 14o. andar, mas com cafezinho puro.

Minha ex-professora de inglês foi uma das primeiras visitas que me animei a receber depois de um ano meio reclusa, ela sabia e estava naturalmente curiosa com tudo de lá pra cá. Especialmente como desapeguei e abri mão de tantas coisas, e sobre a decisão de aprender a cozinhar e frequentar a cozinha, já que, antes, só interrompia o trabalho no ateliê quando me chamavam com a comida pronta. Conversamos e ela sugeriu que eu publicasse esta experiência.

Quase sem sair de casa, interagindo mal ao vivo e nas redes e sem conseguir voltar ao trabalho no ateliê, na verdade eu já vinha escrevendo. Tentava entender o que se passava comigo desde que fiquei viúva e me senti suspensa no ar e desconectada de mim mesma, até esse momento em que Mercia me via não só com outra vida, mas como uma pessoa diferente.

Ela se disse particularmente tocada. “A gente vive querendo mudar mas parece que um imobilismo não deixa!”. Minha amiga tem um curso de inglês para executivos, dois filhos homens feitos, mora com o marido que viaja bastante a trabalho e é vista como uma mulher bem resolvida. Era uma sexta à tarde. Ela foi embora à noite, decidida a se desfazer de coisas desnecessárias na própria casa. Disse que no fim de semana reorganizaria até o armário do banheiro.

Me vi nela. Sempre temos questões por resolver, rasas e fundas. E um exemplo próximo nos potencializa a também realizar nossas próprias mudanças, enfrentar aquelas insatisfações que se escondem pelos cômodos do dia a dia. De um jeito ou de outro a gente sempre tenta. Arrumei armários e gavetas pela vida afora como se ali estivesse o fio da meada para resolver problemas que estavam em outro lugar da casa, na vida, nas relações ou no meu sótão interior.

E talvez ela esperasse me encontrar mais resignada que satisfeita num apartamento pequeno mobiliado com o essencial e numa vida aparentemente mais simples. Mas eu estava serena. Pelo menos esta era minha parte visível. Mesmo ainda relutante nos primeiros passos após um luto difícil em que travei batalhas silenciosas comigo mesma, eu já estava vivendo a vida que escolhi ter, sozinha, a partir de decisões lentas mas conscientes, como doar e vender mais de 80 por cento das roupas e calçados, ser mais atenta ao que de fato seja fundamental para mim, e ir para a cozinha com prazer e tentar fazer bonito para me motivar a comer bem, principalmente.

À mesa era tudo comprado pronto, bolachas sem açúcar, empadinhas de palmito, choux de maçã, balas toffees com menta e chocolatinhos meio amargos, sucos de uva e de frutas vermelhas, água e o pão com que preparei sandubinhas de ricota com geléia de laranja com casca, só fiz café. Ainda não me sentia minimamente capacitada a encarar a confeitaria, minha última tentativa de assar bolachinhas tinha dado errado, semanas atrás.

Eu tinha planejado um cardápio mais delicado com produtos de uma confeitaria alemã do outro lado da cidade, mas um engarrafamento com obras e interdições me fez dar meia volta e improvisar numa confeitaria mais próxima e com o que tinha em casa, para que sobrasse tempo de arrumar a mesa.

Pensei que eu poderia não ser uma companhia agradável, lidava com muitas lembranças nesse último dia de agosto. O marido nasceu num dia 9 e faleceu no dia 2 desse mesmo mês, ano passado. Então arrumei a mesa sem pensar em etiqueta mas do meu melhor jeito para que parecesse bonita e acolhedora. Queria que Mercia se sentisse bem recebida. Ela não reparou no cardápio confuso nem no fato de eu não ter cozinhado nada…

“Eu cozinho bem, mas não monto a mesa com esse cuidado”, ela disse. Senti como se a mesa para ela fosse a ponta do meu iceberg. Gostei de me sentir assim e desafiada a verificar tudo o que ainda não me parece visível…

Não sei se ela fez o que pretendia. Mas esse encontro me fez querer refletir sobre o sentido dessas mudanças que puxaram outras e me conduziram até aqui, pequenas ações – inclusive vasculhar armários e gavetas -, um trabalho de formiguinha, meio intuitivo, meio intencional, com tentativas e erros.

Há tanto por fazer, e às vezes parece tão difícil! Não quero fantasiar uma vida ideal, mas ir descobrindo, com calma, como prosseguir reconstruindo a minha. E a cozinha tem sido talvez a maior das descobertas nesse processo, ela me ensina e eu tento aprender. Mas sinto que já estou me tornando não uma cozinheira, mas uma pessoa melhor.

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1 comentário

  1. Denise

    Muito bom!!!